quarta-feira, março 23, 2011

MST.

Sábado, 12 de Março: é impossível não ficar preso à televisão, transmitindo ininterruptamente as imagens jamais imaginadas de uma catástrofe como a que atingiu o Japão. Primeiro o terramoto, filmado pela câmara de vigilância de um supermercado, uma imagem comovente de duas empregadas que, em lugar de fugirem dali para fora, tentam manter em equilíbrio as prateleiras: a defender o seu posto de trabalho. Depois, as imagens bíblicas do tsunami, entrando dez quilómetros pela terra adentro, reduzindo a um mar de despojos à deriva tudo o que o homem, o seu esforço, os seus sonhos, a sua prosperidade, tinham construído e conquistado ao longo de décadas: casas, monumentos, pontes, auto-estradas, aeroportos carros, barcos, aviões. E, enfim, logo pressentida, a hipótese terrível de uma tragédia nuclear a relembrar aos incautos e aos mentirosos que, se o homem consegue domesticar e pôr ao seu serviço essa energia demencial do átomo, não consegue depois desligá-la, apaziguá-la, saciá-la jamais.
“Se o fim do mundo alguma vez foi filmado, é isto”, penso para comigo. Nenhum filme de terror, nenhuma série científica, nenhum jogo de computador, alguma vez chegou tão próximo de mostrar a violência da terra ou a fragilidade da nossa precária condição de seres-vivos. E, fazendo zapping entre todos os canais internacionais, penso também que nada mais, nenhuma outra notícia, nem sequer o impune massacre de Kadhafi sobre o seu povo, poderá, neste sábado, ter lugar em qualquer outra parte do mundo.
Mas estava enganado: as televisões e a imprensa portuguesa demoraram 36 horas a incomodar-se com a tragédia do Japão — e até hoje ainda não perceberam toda a dimensão da sua importância. É o far side of the world e estão convencidos de que nada chegará cá — nem a nuvem radioactiva, nem o tsunami, nem o aumento do preço do petróleo, uma vez desligadas as 55 centrais nucleares japonesas, nem as consequências económicas da queda brutal de produção na terceira economia do mundo. Nas televisões portuguesas, sábado passado, falava-se de Jesus (o do Benfica, não o do Além), de mais uma lamentação do “superjuiz” (como sempre), da anunciada “greve dos camionistas” — isto é, da sedição terrorista de alguns patrões da camionagem, ordenando aos seus motoristas que apedrejassem os outros e paralisassem as estradas até que o Governo cedesse a cobrir-lhes os riscos próprios do seu privadíssimo negócio. E, claro, dos preparativos para “a manifestação” — aquele imenso movimento nebuloso, convocado pelo Facebook e o jornal “Público”, e que prometia ser qualquer coisa de novo, de jamais visto, nem sequer na Praça Tahrir.
Voltei ao Japão, que a essa hora se preparava para a segunda noite de terror e escuridão, com réplicas constantes do terramoto, um terço do país sem energia, milhões sem água nem comida, milhares de mortos e sobreviventes flutuando em bocados de telhados, de carros, de madeira solta. Anos e anos de esforços, de trabalho duro, de inovação, de estudo e criação de riqueza, de paz e prosperidade, assim submersos em 40 segundos de devastação vinda do fundo do mar e das entranhas da terra. E logo, na madrugada de cá e ao nascer do dia no Japão, chegavam as primeiras imagens dos sobreviventes, alinhando-se ordeiramente para o rastreio da contaminação radioactiva, recolhendo-se aos abrigos provisórios montados pelo Exército, sem atropelos, sem gritos, sem lágrimas, a não ser para recordar mortos e desaparecidos. Nem resignados nem revoltados: apenas conscientes de que vai ser preciso recomeçar tudo outra vez. Talvez não existam muitos povos assim, mas os povos fazem-se, pela capacidade de resistir, de lutar, de reerguer-se após todas as tragédias.
São agora seis da tarde em Portugal. Mudo para a televisão portuguesa, mas, do Japão, a notícia mais importante é que falta encontrar uma portuguesa, residente na zona da catástrofe. De resto, é manifestação, manifestação e mais manifestação. Só resta ver esse grande acontecimento que torna a tragédia planetária do Japão numa coisa sem importância, longínqua e inócua.
Os deolindos tinham acabado de chegar ao Rossio, termo do seu histórico momento de “sobressalto cívico”, como disse o melhor de todos nós. As primeiras imagens que vejo mostram-me que, tal como previa, os Homens da Luta tomaram conta da ocorrência e transformaram a coisa numa imensa e gratuita operação de marketing e promoção comercial. O camarada Jel, misto de MFA com Quim Barreiros, já fora, aliás, transformado num herói nacional, desdobrando-se em entrevistas onde se proclamava continuador dos métodos de luta de Luther King e Gandhi e onde oferecia à nação as insuspeitas profundezas do seu pensamento político. Estava ali o indispensável target dos indispensáveis concertos de Verão, e daí a lista de artistas apoiantes, a quem os Homens da Luta muito generosamente dispensaram uma fugaz presença no palanque da sua camioneta, nos raros instantes em que o revolucionário Jel consentiu em emprestar o megafone a outros. De resto, e como rapidamente se constatou, os tais 200.000 manifestantes lisboetas que a imprensa engoliu sem pestanejar, não representavam a “geração à rasca”, mas sim um extraordinário cardápio de descontentes ou hibernantes que subitamente resolveram fazer prova de vida. Considerando que descontentes somos hoje todos, nem me pareceu grande manifestação: manifestaram-se os descontentes capazes de seguir uma nebulosa ou um Jel e que acreditam que a vida é um prolongamento do Facebook; os outros descontentes ficaram em casa (talvez sejam, afinal, os mais descontentes de todos, porque mais conscientes).
Entre eles, muitos de entre eles, estavam certamente jovens e menos jovens a quem a vida e o rumo do país não deixam lugar à esperança. Estavam muitos verdadeiramente à rasca, como quase todos estamos, tirando os que jogam golfe com 6% de IVA ou abastecem iates a 80 cêntimos o litro de gasóleo, têm a casa sediada numa offshore e a empregada doméstica registada numa firma de import-export, subsidiada pelo nosso IRS. Mas isso é outra conversa, uma conversa séria e de que agora não cuido: estou a falar da “mensagem política” deste sobressalto cívico. Também lá estavam muitos cidadãos ‘NN’: não votam nem querem pagar impostos e acham que, com uma simples manifestação, esgotam todo seu dever cívico. Acham que o Estado só lhes deve direitos e não tem de lhes cobrar deveres; deliberadamente, confundem o Estado com a classe política e os governos para assim se justificarem; querem emprego garantido até ao além (“quero o meu contrato!”, dizia um dos cartazes); querem saúde, assistência social e reformas para a vida; auto-estradas, universidades e farmácia grátis; acreditam que vão continuar eternamente a ter crédito para consumo a taxas mínimas e que tudo o que fizerem merece ser subsidiado pelos contribuintes (que são “os outros”). E agora descobriram na Internet a “revolução da rua”, que viram no Magrebe, sem perceberem que o que reclamam do outro lado do Mediterrâneo é o que lhes sobra aqui: liberdade. Com este sedutor caderno de encargos, tudo coube na Avenida da Liberdade: anarquistas e comunistas (perdoa-lhes, Lenine!), bloquistas e neonazis, pró-gay e pró-rei, CGTP e claques de futebol, a Associação das Famílias Numerosas e entusiastas da aguardente “mil nove e vinte”, actores sem novela e gente vinda do evento subsidiado Moda Lisboa — pois que, como explicava uma revista social, a manif no Rossio e a Moda Lisboa no Terreiro do Paço eram os acontecimentos in do fim-de-semana. Ah, e estava também a Joana Amaral Dias.
Ali próximo, também, 8000 professores reuniam-se para ouvir Mário Nogueira, da Fenprof, anunciar, radiante, que se prepara uma greve dos professores aos exames, lá para Junho/Julho, porque o Governo lhes retirou o subsídio de avaliação de exames. (Você sabia que os professores recebiam 25 euros por cada exame corrigido? Eu não, vejam lá a minha ingenuidade: estava convencido de que isso fazia parte das tarefas normais de um professor, as quais ele desempenharia com o brio de quem quer saber o resultado do seu trabalho ao longo de um ano). Engano: não receber um extra por corrigir exames é uma tamanha ofensa à classe, que Mário Nogueira, também ele impressionado e inspirado com o que acontecia no Japão, prometeu fazer disso “não uma onda, mas um tsunami de protestos e luta”.
Quinta-feira, 17 de Março: em armazéns onde se amontoam ordeiramente, desprovidos de tudo e reduzidos a despojos de uma catástrofe indizível, assolados pelo medo da morte nuclear silenciosa, as crianças de Sendai e Tsushima recebem aulas dos professores que ali se encontram. E Tóquio, já quase totalmente às escuras, começa a ser evacuada. Mas o que agora ocupa a nossa imprensa é o drama insubstituível que o país vive de saber se Sócrates e Passos Coelho passam do clímax do ‘agarrem-me se não mato-o’ para a solução e clarificação dos problemas do país: crise, eleições e os que nos terão de emprestar dinheiro para continuarmos a respirar satisfeitos e acalmados por anteciparem três meses garantidos de paralisia aqui, sem governo, mas com muita animação, bifanas e sardinhas, discursos empolgantes de feiras e multidões de deolindos jurando por sua honra exterminar de vez toda a classe política. Enfim, um Portugal sem governo, tal como desejado por tantos e tão necessário agora.

Dentro de cinco anos, dez no máximo, o Japão estará reconstruído de toda esta devastação que o destino lhe reservou. Mas nós estaremos na mesma ou pior. Tudo o resto não interessa à História.

4 Comentários:

Às 8:05 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Sem dúvida uma exlente crónica de MST..

 
Às 8:08 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Não é dos cronistas meus preferidos "mas por vezez faz crónicas de muita qualidade..È o caso. Abraço

 
Às 7:28 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

artigo que descreve (quase, faltou a parte pior as radiações), o terror do que se está a passar no japão. vai intercalando com as misérias deste país, onde não se acordou do facilitismo vivido pelos os novos ricos em todas as áreas.
de facto ao ler o artigo dá vontade de sair daqui, nem que fosse para ajudar a dar carinho aos milhares que estão a precisar tanto!!!
kota

 
Às 1:04 da tarde , Blogger Pedro Coimbra disse...

O tema não era futebol, nem caça, nem cigarros.
E a crónica é excelente.
Como é hábito

 

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